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Crônica I · II - A Fundação do Reino
Episódio I : Os Portões do Reino

A Porta Aberta

Desde que os mais antigos se lembravam, as portas do Reino permaneciam abertas.

Vinham pessoas de toda parte, muitas vezes sem sequer conhecer o nome daquele que reinava sobre o lugar. Alguns viajantes chegavam com pressa; outros ainda hesitavam sobre o que desejavam levar consigo. Ainda assim, todos atravessavam a mesma ponte, passavam sob a mesma grade levadiça e entravam no grande pátio.

À entrada, ninguém lhes perguntava por que tinham vindo.

Podiam trazer uma declaração, um pensamento leve, uma tristeza difícil de nomear, um agradecimento ou simplesmente algumas palavras destinadas a tornar o dia de alguém mais doce. Não cabia ao Reino julgar a sua intenção. A sua missão era mais simples: dar-lhe uma forma.

Os viajantes confiavam então a sua mensagem às oficinas. Quando partiam, levavam consigo o cesto cheio: uma obra moldada para eles, pronta para continuar o seu caminho até alguém que o Reino jamais conheceria.

A Promessa

Acima da entrada não havia nenhum lema grandioso. Ainda assim, todos os artesãos conheciam a regra.

O que é oferecido deve funcionar.

Um viajante jamais deveria descobrir, depois de abrir o seu cesto, que a promessa do Reino não se aplicava a ele.

Pouco importava que milhares de outros tivessem partido satisfeitos. Aquele cuja obra tivesse sido deformada, mutilada ou traída não via os sucessos anteriores. Via apenas a sua própria experiência.

Por isso, Alain le Grand recusava-se a permitir que uma anomalia se perdesse nos números. Uma obra podia ter sido produzida, contada e entregue; se o seu sentido tivesse sido alterado, então a missão não estava cumprida.

O Reino não prometia fazer tudo. Mas aquilo que anunciava, tinha de cumprir.

O Que os Cestos Transportam

Os artesãos raramente viam aqueles a quem as obras se destinavam. Quase nada sabiam sobre quem as havia encomendado. Muitas vezes, jamais saberiam se a mensagem tinha sido entregue, nem de que maneira.

Isso não diminuía o seu cuidado.

Sabiam que o amor, a tristeza, a raiva e a gratidão sempre procuram uma forma de se expressar. O Reino era apenas um meio entre outros: não criava essas emoções; tentava apenas torná-las mais belas sem jamais as deformar.

Quando o trabalho era bem feito, a ferramenta desaparecia.

O viajante não pensava nas oficinas, nos caldeirões, nos manuscritos nem nas longas noites passadas a compreender aquilo que resistia. Via simplesmente que a sua mensagem tinha encontrado a forma que esperava.

Então deixava o castelo satisfeito, e a porta permanecia aberta para o próximo.

Fim do Episódio 1.

Episódio II : As Primeiras Oficinas

O Nascimento da Grande Forja

Na aurora da segunda era, Gif-Mania ainda não era um vasto reino, nem sequer um castelo digno desse nome.

Era, acima de tudo, um canteiro de obras.

Algumas paredes mantinham-se de pé por pura convicção. Cabos percorriam os corredores. Pergaminhos cobertos de sinais misteriosos amontoavam-se sobre as mesas. Numa pequena sala aquecida por um servidor que soprava como um boi asmático, o Rei esforçava-se para fabricar assinaturas animadas.

Seu irmão Houston observava a cena da soleira da porta.

— Tem certeza de que isso deve piscar assim? perguntou.

— Não é um piscar, respondeu o Rei. É uma animação.

— A animação acabou de desaparecer.

— Ela vai voltar.

Ela voltou.

Depois desapareceu novamente.

Houston anotou alguma coisa em seu caderno.

— O que está escrevendo?

— “Funcionamento intermitente considerado promissor pela direção.”

O Rei confiscou-lhe o caderno.

Para produzir uma assinatura, era preciso reunir vários elementos: um texto escolhido pelo visitante, uma fonte capaz de desenhá-lo, uma cor, um fundo, às vezes uma pequena figurinha animada e magia suficiente para montar tudo sem incendiar o castelo.

Por isso, o primeiro grande salão do Reino foi batizado de Forja das Assinaturas.

O visitante depositava seu pedido no balcão. Em seguida, ele atravessava uma sucessão de oficinas cujo plano, naquela época, ninguém ainda havia desenhado.

Na primeira oficina, as letras eram traçadas.

Na segunda, recebiam suas cores.

Na terceira, preparavam-se as imagens sucessivas da animação.

Na quarta, tudo era reunido num GIF apresentado ao visitante com um sorriso, mesmo quando tinha sido necessário reconstruí-lo seis vezes.

O Rei conhecia cada engrenagem. Sabia quais alavancas acionar, quais comandos pronunciar e em qual cano dar um pontapé quando um frame se recusava a ficar transparente.

O problema era que todo esse conhecimento existia apenas em sua cabeça.

Houston olhou para as oficinas e depois para o irmão.

— E se você cair no fosso?

— Eu não caio em fossos.

— E se for sequestrado por bárbaros?

— Por que bárbaros me sequestrariam?

— Para entender como funciona a transparência dos GIFs.

O Rei refletiu.

— Nesse caso, eles me devolverão rapidamente.

As Figurinhas Entram no Reino

As assinaturas compostas apenas de texto já agradavam aos visitantes.

Mas logo surgiram pequenas criaturas: animais, personagens, objetos, corações, flores, xícaras de café e seres indefiníveis cuja existência parecia justificada apenas por sua capacidade de se mexer a cada dois segundos.

Foram chamadas de toons.

Cada toon possuía suas próprias dimensões, seu próprio número de frames, seu ritmo e, às vezes, seu próprio temperamento.

Alguns chegavam com um fundo transparente perfeitamente disciplinado.

Outros arrastavam atrás de si um quadrado branco que se recusavam obstinadamente a abandonar.

Alguns possuíam um fundo opaco totalmente voluntário.

E certos toons pareciam mudar de ideia de um frame para o outro.

Ainda assim, o Rei decidiu que todos teriam lugar no Reino.

— Até aquele? perguntou Houston, apontando para uma criatura de cinquenta pixels que agitava os braços sem razão identificável.

— Até aquele.

— E esta xícara de café?

— Ela solta vapor.

— Não.

— Talvez um dia solte.

Assim nasceu o Catálogo de Figurinhas, logo acompanhado por uma praça pública onde os visitantes poderiam compartilhar suas próprias criações.

Essa escolha acrescentava uma dificuldade considerável: o Reino já não precisava apenas saber tratar as imagens produzidas em suas oficinas. Também precisava acolher as vindas de fora, com suas qualidades, suas esquisitices e, às vezes, suas maldições.

O princípio foi, no entanto, gravado acima da porta:

Toda função oferecida aos habitantes deve realmente funcionar, mesmo quando raramente é utilizada.

Houston releu a máxima.

— Você sabe que vamos nos arrepender desta frase?

— Certamente.

— Mando gravá-la na pedra?

— Na pedra.

O Primeiro Quadrado Preto

Certa noite, depois que os visitantes deixaram o grande salão, Houston percebeu uma assinatura abandonada sobre uma mesa.

O texto estava correto.

A figurinha estava correta.

A animação funcionava.

Mas ao redor da criatura aparecia um retângulo preto de péssimo efeito.

Houston tocou o sino.

O Rei chegou correndo.

— Incêndio?

— Pior.

— Ataque?

— Olhe.

O Rei examinou o retângulo.

— Ah.

— “Ah”?

— É a transparência.

— Ela está preta.

— Justamente. Está manifestando sua ausência.

Essa foi a primeira de uma longa série de batalhas contra a transparência.

Os artesãos descobriram que uma imagem podia ser transparente sem continuar assim, que um fundo podia existir sem ser visível e que uma cor declarada inexistente podia, ainda assim, invadir toda uma animação.

Também aprenderam que era possível passar várias horas procurando um problema que só aparecia no terceiro frame de um GIF visto por um visitante que usava um navegador específico.

Houston aperfeiçoou então sua arte.

Ele não fabricava as assinaturas.

Ele as vigiava.

Inspecionava os resultados, identificava quadrados suspeitos, pontos de interrogação, caracteres ausentes e comportamentos que os artesãos descreviam educadamente como “inesperados”.

Quando algo parecia anormal, erguia seu estandarte.

No início, o Rei achava isso excessivo.

Depois compreendeu que Houston não era o homem que anunciava as catástrofes.

Era aquele que as via antes que se tornassem habituais.

O Reino Ganha Forma

Pouco a pouco, as oficinas foram ampliadas.

As assinaturas criadas foram registradas nos livros: texto solicitado, fonte utilizada, cores, fundo, figurinha e identificadores necessários para reproduzir o resultado.

Graças a esses arquivos, uma anomalia já não era apenas um rumor relatado por um viajante.

Ela podia ser reproduzida.

Observada.

Comparada.

Compreendida.

Sem perceber, o Reino entrava numa nova era.

Já não se limitava a produzir.

Começava a se lembrar.

E quando um reino começa a se lembrar do que fabrica, torna-se possível distinguir um acidente de um mecanismo, uma intuição de uma regra e um remendo provisório de uma arquitetura duradoura.

O Rei contemplou a Forja, o Catálogo, os primeiros registros e seu irmão, que examinava uma assinatura com uma lupa.

— Então temos um reino? perguntou Houston.

— Temos pelo menos vários cômodos.

— Alguns não têm teto.

— Os reinos sempre começam em algum lugar.

Houston ergueu os olhos para uma viga que acabara de se soltar.

— Este está começando bem baixo.

Fim do Episódio 2.

Episódio III : O Julgamento da Feiticeira JayDee

O Nascimento da Grande Forja

Na aurora da segunda era, Gif-Mania ainda não era um vasto reino, nem sequer um castelo digno desse nome.

Era, acima de tudo, um canteiro de obras.

Algumas paredes mantinham-se de pé por pura convicção. Cabos percorriam os corredores. Pergaminhos cobertos de sinais misteriosos amontoavam-se sobre as mesas. Numa pequena sala aquecida por um servidor que soprava como um boi asmático, o Rei esforçava-se para fabricar assinaturas animadas.

Seu irmão Houston observava a cena da soleira da porta.

— Tem certeza de que isso deve piscar assim? perguntou.

— Não é um piscar, respondeu o Rei. É uma animação.

— A animação acabou de desaparecer.

— Ela vai voltar.

Ela voltou.

Depois desapareceu novamente.

Houston anotou alguma coisa em seu caderno.

— O que está escrevendo?

— “Funcionamento intermitente considerado promissor pela direção.”

O Rei confiscou-lhe o caderno.

Para produzir uma assinatura, era preciso reunir vários elementos: um texto escolhido pelo visitante, uma fonte capaz de desenhá-lo, uma cor, um fundo, às vezes uma pequena figurinha animada e magia suficiente para montar tudo sem incendiar o castelo.

Por isso, o primeiro grande salão do Reino foi batizado de Forja das Assinaturas.

O visitante depositava seu pedido no balcão. Em seguida, ele atravessava uma sucessão de oficinas cujo plano, naquela época, ninguém ainda havia desenhado.

Na primeira oficina, as letras eram traçadas.

Na segunda, recebiam suas cores.

Na terceira, preparavam-se as imagens sucessivas da animação.

Na quarta, tudo era reunido num GIF apresentado ao visitante com um sorriso, mesmo quando tinha sido necessário reconstruí-lo seis vezes.

O Rei conhecia cada engrenagem. Sabia quais alavancas acionar, quais comandos pronunciar e em qual cano dar um pontapé quando um frame se recusava a ficar transparente.

O problema era que todo esse conhecimento existia apenas em sua cabeça.

Houston olhou para as oficinas e depois para o irmão.

— E se você cair no fosso?

— Eu não caio em fossos.

— E se for sequestrado por bárbaros?

— Por que bárbaros me sequestrariam?

— Para entender como funciona a transparência dos GIFs.

O Rei refletiu.

— Nesse caso, eles me devolverão rapidamente.

As Figurinhas Entram no Reino

As assinaturas compostas apenas de texto já agradavam aos visitantes.

Mas logo surgiram pequenas criaturas: animais, personagens, objetos, corações, flores, xícaras de café e seres indefiníveis cuja existência parecia justificada apenas por sua capacidade de se mexer a cada dois segundos.

Foram chamadas de toons.

Cada toon possuía suas próprias dimensões, seu próprio número de frames, seu ritmo e, às vezes, seu próprio temperamento.

Alguns chegavam com um fundo transparente perfeitamente disciplinado.

Outros arrastavam atrás de si um quadrado branco que se recusavam obstinadamente a abandonar.

Alguns possuíam um fundo opaco totalmente voluntário.

E certos toons pareciam mudar de ideia de um frame para o outro.

Ainda assim, o Rei decidiu que todos teriam lugar no Reino.

— Até aquele? perguntou Houston, apontando para uma criatura de cinquenta pixels que agitava os braços sem razão identificável.

— Até aquele.

— E esta xícara de café?

— Ela solta vapor.

— Não.

— Talvez um dia solte.

Assim nasceu o Catálogo de Figurinhas, logo acompanhado por uma praça pública onde os visitantes poderiam compartilhar suas próprias criações.

Essa escolha acrescentava uma dificuldade considerável: o Reino já não precisava apenas saber tratar as imagens produzidas em suas oficinas. Também precisava acolher as vindas de fora, com suas qualidades, suas esquisitices e, às vezes, suas maldições.

O princípio foi, no entanto, gravado acima da porta:

Toda função oferecida aos habitantes deve realmente funcionar, mesmo quando raramente é utilizada.

Houston releu a máxima.

— Você sabe que vamos nos arrepender desta frase?

— Certamente.

— Mando gravá-la na pedra?

— Na pedra.

O Primeiro Quadrado Preto

Certa noite, depois que os visitantes deixaram o grande salão, Houston percebeu uma assinatura abandonada sobre uma mesa.

O texto estava correto.

A figurinha estava correta.

A animação funcionava.

Mas ao redor da criatura aparecia um retângulo preto de péssimo efeito.

Houston tocou o sino.

O Rei chegou correndo.

— Incêndio?

— Pior.

— Ataque?

— Olhe.

O Rei examinou o retângulo.

— Ah.

— “Ah”?

— É a transparência.

— Ela está preta.

— Justamente. Está manifestando sua ausência.

Essa foi a primeira de uma longa série de batalhas contra a transparência.

Os artesãos descobriram que uma imagem podia ser transparente sem continuar assim, que um fundo podia existir sem ser visível e que uma cor declarada inexistente podia, ainda assim, invadir toda uma animação.

Também aprenderam que era possível passar várias horas procurando um problema que só aparecia no terceiro frame de um GIF visto por um visitante que usava um navegador específico.

Houston aperfeiçoou então sua arte.

Ele não fabricava as assinaturas.

Ele as vigiava.

Inspecionava os resultados, identificava quadrados suspeitos, pontos de interrogação, caracteres ausentes e comportamentos que os artesãos descreviam educadamente como “inesperados”.

Quando algo parecia anormal, erguia seu estandarte.

No início, o Rei achava isso excessivo.

Depois compreendeu que Houston não era o homem que anunciava as catástrofes.

Era aquele que as via antes que se tornassem habituais.

O Reino Ganha Forma

Pouco a pouco, as oficinas foram ampliadas.

As assinaturas criadas foram registradas nos livros: texto solicitado, fonte utilizada, cores, fundo, figurinha e identificadores necessários para reproduzir o resultado.

Graças a esses arquivos, uma anomalia já não era apenas um rumor relatado por um viajante.

Ela podia ser reproduzida.

Observada.

Comparada.

Compreendida.

Sem perceber, o Reino entrava numa nova era.

Já não se limitava a produzir.

Começava a se lembrar.

E quando um reino começa a se lembrar do que fabrica, torna-se possível distinguir um acidente de um mecanismo, uma intuição de uma regra e um remendo provisório de uma arquitetura duradoura.

O Rei contemplou a Forja, o Catálogo, os primeiros registros e seu irmão, que examinava uma assinatura com uma lupa.

— Então temos um reino? perguntou Houston.

— Temos pelo menos vários cômodos.

— Alguns não têm teto.

— Os reinos sempre começam em algum lugar.

Houston ergueu os olhos para uma viga que acabara de se soltar.

— Este está começando bem baixo.

Fim do Episódio 2.